Introdução

Na Umbanda, as Crianças espirituais se manifestam na Linha de Cosme e Damião, também conhecida como Ibeji ou Yori.

Essas Entidades trazem, para os terreiros, vibrações muito de intensas de alegria e harmonia. O dia consagrado à Cosme e Damião é 27 de setembro, data em que a maioria dos terreiros fazem suas oferendas com guloseimas, fazendo a alegria da garotada e dos adultos que ali acorrem.

Lenda africana sobre Ibeji

O culto aos gêmeos remonta aos tempos mais antigos. Na mitologia grega encontramos os heróis gêmeos, também chamados Dióscuros, Castor e Pólux. Conta se que as famílias romanas os invocavam por ocasião de doenças, principalmente em crianças.

Em quase todas as culturas o nascimento de gêmeos, sempre era considerado prenúncio de coisas boas. Em Togo, no Daomé (atual Benin) e na Nigéria Ocidental, a ocorrência de dois ou três filhós no mesmo parto era motivo de grande júbilo, e a mãe recebia grandes homenagens.

Ibeji são Orixás nagôs que representam os gêmeos e simbolizam também a fecundidade.

Câmara Cascudo diz nos o seguinte:

Ibeji são Orixás jeje nagôs, representados nos candomblés pelos santos católicos gêmeos Cosme e Damião. Não há fetiche dos Ibeji, que em Cuba são os Jimaguas estes sem qualquer semelhança com as imagens católicas. Os africanos católicos da Costa de Escravos costumavam batizar seus filhos gêmeos com os nomes de Cosme e Damião. O culto dos Ibeji nos nagôs é uma homenagem à fecundidade.

Nina Rodrigues identificou os Ibeji nas formas bonitas dos dois santos mártires, ligando os à religião negra. Inexplicável é o desaparecimento dos ídolos Ibeji e a sobrevivência cristã de Cosme e Damião.

Dos Ibeji caracterizadamente nada se conhece no Brasil.

Fernando Ortiz, na sua obra Los Negros Brujos, diz que os Orixás Ibeji são as divindades tutelares dos gêmeos, idênticos ao deus Hoho das Tribos Ewe (jejes). Aos Ibeji está consagrado um pequeno mono chamado Edon Dudu ou Edun Oriokun, e geralmente a um dos meninos gêmeos se chama também Edon ou Edun. Os bruxos cubanos dizem a Fernando Ortiz ser Jimagua representação de Dadá e Ogum, irmãos de Xangô, tanto assim que a faixa que os envolve é vermelha.

Na África as crianças representam a certeza da continuidade, por isso os pais consideram os filhos como a maior riqueza. A palavra Igbeji significa gêmeos e o Orixá Ibeji é o único permanentemente duplo.

Forma-se a partir de duas entidades distintas que coexistem, respeitando o princípio básico da dualidade. Ibeji são os opostos que caminham juntos, a dualidade de todo ser humano.

Existe uma confusão corrente em determinados terreiros de Umbanda, onde se confunde os Orixás Ibeji com os Erês. O Erê não é uma entidade e nem um Orixá, é um estado de transe infantil pelo qual o iniciado do Candomblé passa após “desincorporar” o seu Orixá manifestado. O Erê é o intermediário entre a pessoa e o seu Orixá. É o desabrochar da criança que cada um traz dentro de si.

Doum – Lenda ou Orixá?

Na representação católica, encontramos sempre e exclusivamente as figuras de Cosme e Damião, sem nenhuma referência séria à personagem Doum.

Ronaldo Linares, após pesquisas exaustivas sobre o assunto, não havia conseguido nada de positivo sobre a existência física deste simpático terceiro irmão. Em 1969, numa conversa informal com o Sr.

José Francisco Holwat Gusmão, primeiro lojista de artigos de Umbanda e Candomblé do Rio de janeiro e que tinha uma loja na ladeira do Faria, próximo à Estação Central do Brasil, este relatou o seguinte:

A princípio vendia ervas, produtos animais e velas num tabuleiro próximo à estação. Com a melhoria dos negócios, resolveu estabelecer se, adquirindo as instalações de uma falida joalheria das imediações.

Em uma das vitrinas, procurando agilizar seu comércio, ele passou a expor, com destaque, os santos comemorados naquele mês.

Em setembro, um garoto, que com ele trabalhava, acomodava as imagens, separadas, de São Cosme e São Damião, quando uma delas caiu e quebrou se. O garoto teve a ideia de colocar a imagem restante entre outro par de imagens de tamanho maior, apenas por uma questão de estética. O povo da Guanabara já havia se acostumado a chamar a Cosme e Damião de “Dois Dois”, e mal o garoto acabou de arrumar a vitrina, um irreverente carioca, estranhando a figura solitária entre os “Dois Dois”, perguntou: “O meu, quem é o baixinho no meio dos “Dois Dois?” O garoto respondeu “sozinho, no meio dos Dois Dois, só pode ser o Doum”.

Vejamos o outro lado da história:

A religiosidade popular encarregou se de perpetuar essa figura, que hoje é exclusiva da Umbanda e simboliza uma criança. Hoje é comum, entre as crianças do Rio de Janeiro, o nome próprio Doum, o que não é de estranhar, pois também não existia o nome Aparecida até o advento da imagem da Virgem Maria nas águas do Rio Paraíba.

Outra versão nos diz que os africanos, aportados no Brasil, chamavam Doú o filho gestado e nascido depois de um parto gêmeo. Doú ganhou um “m” no final, pela tendência da nossa língua, em que uma consoante nasal provoca o anasalamento da vogal seguinte.

Comida de Santo (Orixá) consagrada a Ibeji

Além das guloseimas e refrigerantes ofertados as crianças, é comum, no dia 27 de setembro, tanto na Umbanda como no Candomblé, a arriada, chamada de caruru dos meninos.

O caruru dos meninos é uma festa realizada em 27 de setembro. O prato principal é o caruru (comida feita com quiabos cortados às rodelas, camarão seco, peixe, castanhas de caju, amendoim torrado e picado, azeite de dendê, pimenta, cebola e alho). Além desse prato, servem se. também feijão, abóbora, acarajé, acaçá, banana da terra em azeite de dendê, milho branco, inhame, farofa de azeite com camarão, pipocas etc.

Três vezes, em dias diversos, antes de sábado ou domingo, geralmente escolhidos para a festa, saem os santos numa caixa de papelão cheia de pétalas de rosas, a pedir esmolas, de porta em porta.

Missa pedida para São Cosme e São Damião.

Este procedimento só é utilizado pelos devotos menos favorecidos pela sorte, mas em qualquer caso, os devotos devem sair até a casa de amigos e pedir esmolas, desde alguns centavos até quantias maiores. O dinheiro das esmolas deve ser todo gasto com os meninos, sob pena de cometer se pecado imperdoável.

No dia da festa, as pessoas participam de missa contratada com antecedência para os meninos, em qualquer igreja. Uma criança, geralmente uma menina, leva a imagem particular da família e a coloca no altar para receber as bênçãos do sacerdote. Essa missa deve ser celebrada todos os anos para não atrasar o devoto (esse fato mostra a dependência do Candomblé em relação à Igreja Católica).

Durante a festa, junto com as iguarias, serve se o aluá, uma garapa de cascas de abacaxi ou de gengibre com rapadura. Coloca se um pouco dessa comida aos pés dos santos, antes que alguém se sirva delas.

Sobre o chão da sala de jantar, estende se uma esteira de palha, on¬de se sentarão as crianças, e sobre a esteira coloca se uma bacia con¬tendo comida bastante para todos.

Durante o banquete da meninada entoam se cânticos especiais alu¬sivos à data.

Características dos filhos de Ibeji (Cosme e Damião)

Alegria, sem sombra de dúvidas, é a principal característica dos filhos de Ibeji (Cosme e Damião). Mesmo em circunstâncias difíceis, os filhos de Cosme e Damião parecem sempre irradiar alegria. São simples, generosos, altruístas, embora um tanto inconstantes, sinceros e justos. Têm grande apego à família e aos amigos, não raramente fazendo grandes sacrifícios para beneficiar a outros. Gostam de participar e dividir tudo o que têm e contentam-se com pouco. Não admitem não serem considerados e se magoam quando acham que não foram tratados com a devida consideração, embora não guardem rancor. Demoram um pouco para esquecer uma ofensa recebida. Exigem um pouco de mimo e de atenção em quase tudo o que fazem. Adoram ver seu trabalho reconhecido e admirado.

Os filhos de Ibeji (Cosme e Damião) são bons pais e bons maridos. Amantes do lar são ainda calmos e tranquilos.

As filhas de Cosme e Damião são excelentes esposas e mães, embora geralmente muito dependentes. Costumam estabelecer laços familiares muito fortes. Não raramente, mesmo com idade avançada, não tomam quase nenhuma atitude sem consultar seus pais ou outros parentes ascendentes.

Ponto riscado de Ibeji Revista Vamos Ler! n. 426, setembro de 1944
Cosme e Damião
Revista Vamos Ler!, n. 426,
28 de setembro de 1944

Editor: Diamantino
Fernandes Trindade

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